Sobre ela...



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Não te olha nos olhos, como se tivesse medo, não do que vai ver, mas do que pode revelar. Como se pudesses ver, através do olhar dela, os segredos que guarda na alma. Não fala sério, nunca o faz, escudando-se na piada, como se o riso lhe espantasse os demónios. Posiciona-se estrategicamente, sempre a uma distância segura, evitando o toque, como se ao estar fisicamente longe, pudesse afastar-se emocionalmente, não permitindo que ninguém se aproxime o suficiente para a magoar.  Parece absolutamente calma, no entanto, enrola a mesma madeixa de cabelo nos dedos, vezes sem conta, num tique nervoso fácil de descodificar. Não parece o tipo frágil e ainda assim, dás por ela a morder a bochecha para não sucumbir às lágrimas. E quanto mais a conheces, menos a entendes.

Neste lugar á noite...



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As luzes tremeluzentes, lá muito em baixo, parecem reflectir o meu estado de alma, os meus sentimentos a oscilarem perigosamente, ora puros e cheios de brilho, ora egoístas e negros como breu. 

Reina o silêncio, apenas interrompido pelo cantar das cigarras e pelos sons distantes de uma cidade que parece não dormir, tal como eu, acordada pelos ruídos gritantes das minhas incertezas.

Estou o mais próximo que é possível estar do céu aqui, e ainda assim, nunca me senti tão definitivamente no inferno.

Vejo uma estrela cadente e peço-lhe um desejo, plenamente consciente de que a sua realização, seria também a concretização do meu pior pesadelo.

Vim á procura de paz, mas sinto-me cada vez mais inquieta, procurava encontrar-me e quando dou por mim, estou ainda mais perdida...

Naquele lugar



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Esquece-se dela, no momento em que se despedem, como se ela apenas existisse ali, naquele lugar onde ela sorri com lábios de morango e ri com vontade, numa gargalhada quase musical, onde as palavras fluem como um rio e discorre apaixonadamente sobre sonhos e ideais, onde ela se afasta e evita o toque, quase como se temesse que uma corrente eléctrica a atravessasse, onde baixa o olhar avelã, daquele modo tão característico, numa timidez tão estranha em alguém que parece tão extrovertido.

Esquece-se dela, naquele lugar onde ele pode fazer confidências e contar-lhe histórias e ideias sem nexo, onde pode ser mais frágil e humano sem temer que o ache fraco, onde pode perder-se em ilusões e sonhos e sentir-se acompanhado, onde franzir o sobrolho de concentração, numa expressão tão habitual nele, não é considerado sinal de amuo ou aborrecimento, onde pode ser quem é, sem estranhezas ou embaraços.

Esquece-se dela, naquele lugar onde pode observar-lhe os trejeitos e expressões, sem receio de interrupções, sem temer que ela possa perceber, concentrada que está em evitar encará-lo, onde se contém e não diz as palavras que lhe queimam a língua, onde a vontade de perder a razão com ela lhe devora as entranhas, onde é, enfim, seguro estar com ela.

Esquece-se dela, naquele lugar, onde a existência dela não se fina, mas lhe é mais agradável, onde a pode esquecer hoje e reencontrar amanhã.

Esquece-se dela, para não ter de a lembrar, a cada passo que dá, com a consciência que a vida lá fora nunca será como naquele lugar.

Razões...



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Não entendes a frieza que habita entre nós, no lugar onde morava caloroso entendimento,  ou a ausência, indiferente, de quem costumava  necessitar desesperadamente da tua presença... Não entendes  os silêncios, prolongados e distantes, que silenciaram as lânguidas conversas de noites inteiras ou as palavras  antónimas aos carinhosos poemas de outros dias...

Dou por mim a escudar-me do medo nesses silêncios demasiado gritantes e ausências intermináveis...

Sabes, quando foste embora, deixaste-me a alma a sangrar e o coração em ferida... Não conseguia respirar livremente, não era capaz de recordar-te porque não havia um único pedaço de mim capaz de não sofrer... Tu estilhaçaste-me em milhares de fragmentos... Eu era apenas uma sombra, uma total ausência de mim...um nada que apenas existia num imenso vazio de ti...

Magoaste-me... E eu perdoei... Mas não esqueci...  E apesar de não me lembrar de quem era para ti antes de me magoares, a dor é um sentimento que difícilmente se apaga da alma e que se teme mais do que o vazio... E dela eu lembro-me bem.

Não perguntas... e ainda assim suspeito que sabes a resposta, capaz, como só tu, de me ler nas entrelinhas e me desvendar a alma.

As minhas pessoas...



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As minhas pessoas são constantes na minha vida, apesar da inconstância das circunstâncias... Sao aquelas que estão longe, mas que me permanecem no coração, como um pedaço de mim solto pelo mundo... São aquelas com quem não falo todos os dias, mas cujas palavras permanecem vibrantes na minha cabeça e cujas vozes recordo nitidamente a toda a hora, como se me estivessem a segredar ao ouvido... As minhas pessoas são aquelas que me abraçam e cujo abraço diz mais do que qualquer frase feita...  São as que choram comigo quando a vida torna difícil sorrir e as que me levam ás lágrimas de tanto rir da estupidez do Mundo...

As minhas pessoas são aquelas que não se importam de dormir menos horas num dia da semana, sabendo que se vão deitar tarde, e que no dia seguinte o despertador impiedoso vai acordá-las bem cedo para o trabalho, apenas para jantarmos juntos e celebrar qualquer pequena conquista... São aquelas que fazem uma longa viagem apenas para se sentarem num silencio tranquilo enquanto desabafo as mágoas de um dia menos bom...
As minhas pessoas são aquelas que sabem que eu não sou de saídas até de madrugada e, mesmo assim, convidam-me sempre para uma boa noitada... São aquelas por quem eu vou, a resmungar todo o caminho, até um bar qualquer, e que acabam por fazer dessa noite uma das melhores da minha vida... São as que combinam cafés de todas as vezes que estamos juntos, e acabamos por adiá-lo, porque não encontramos horas compatíveis, porque gostamos de estar sossegados no nosso cantinho, porque não nos apetece ver ninguém ou simplesmente, estamos com preguiça de sair de casa... E está tudo bem... As minhas pessoas são aquelas com quem um café a meio da tarde, leva a um jantar á noite e a uma noite de cinema ou jogos caseiros....

As minhas pessoas são as que entram em minha casa a qualquer hora, do dia ou da noite porque se sentem sós  ou porque simplesmente lhes sabe bem a companhia... São as que mudam o canal de televisão a meio de um programa, sem pedir autorização e ignoram as minhas reclamações... São as que se sentam no meu sofá e se cobrem com a minha manta, acabando por adormecer e me deixam enternecida...

As minhas pessoas são aquelas a quem posso dizer aquilo que me vai na alma, sem ser politicamente correcta, a verdade nua e crua e que não me vão julgar... São as que num momento me vêem a rir e no seguinte irritada e apenas me dizem, com um sorriso parvo, o quão frustrante, incompreensiva ou difícil consigo ser, são as que me vêem reclamar do mundo e me perguntam se acordei com os pés de fora... As minhas pessoas são as que me irritam só pelo prazer de ouvirem uma resposta ácida.... São as que passam horas a trocar insultos e a desconversar... As que se sentam ao meu lado com os head  phones e o portátil enquanto trabalhamos... As minhas pessoas são as que me conhecem as fraquezas e as forças e que nunca as usam em seu proveito... São as que me lêem a alma só com um olhar e que me amam por quem eu sou, mesmo quando eu não mereço...

As minhas pessoas são aquelas por quem faço coisas destas... E por quem faria tudo novamente...

Café



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Adoro café...

Tinha 15 anos quando bebi o meu primeiro café, numa pastelaria ao pé da escola secundária onde estudava e onde, invariavelmente, o meu grupo de amigos matava o tempo entre a hora a que chegavamos à escola e a primeira aula da manhã, no meio de cadernos, trabalhos de casa feitos às três pancadas e risos, tantos risos... Gostei tanto do sabor reconfortante daquela bebida quente, numa manhã de inverno tão fria, que bebi outro... Nunca mais deixei de beber café... O café foi, ao longo dos anos, o meu aliado nas longas noites de estudo enquanto frequentei a Universidade, e depois disso, quando o trabalho me obrigava a maratonas nocturnas... Foi e ainda é, o meu calmante, sim, parece impossível, eu sei, mas sinto-me sempre mais calma depois de um café, nos dias tristes em que a vida parece demasiado difícil de suportar e me apetece viver escondida num buraco, longe dos dramas e preocupações do dia a dia...

O café é a minha bebida preferida, não apenas pelo sabor, mas porque me aquece a alma... é mais do que apenas café... Lembra-me conversas à volta da mesa de jantar, segredos murmurados, desabafos, lágrimas partilhadas, gargalhadas incontidas...  Lembra-me páginas em branco, livros por ler e  máquinas de escrever antigas... Lembra-me viagens de comboio e faróis perdidos... Lembra-me amanheceres cheios de sol e finais de tarde chuvosos... Lembra-me partidas e reencontros, finais e recomeços...  Lembra-me amor, paixão, desejo... E amizade, confiança, lealdade... Lembra-me de quem gosto e de quem gosta de mim...

Gosto do café amargo, sem açúcar e, dependendo se é Inverno ou Verão, quente ou com gelo... Não sei se há algum teste do tipo "o que o seu café diz acerca da sua personalidade" mas gostava de saber o que a minha paixão por café diz sobre mim...

Adoro café...

Adeus não...



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- Adeus pequena. - Dizes, envolvendo-me no teu abraço familiar e fazendo-me uma festa no cabelo. Mais do que o gesto, as palavras que escolhes para te despedires de mim magoam-me. Encosto a testa no teu ombro e inspiro, na tentativa de me acalmar e de conseguir segurar as lágrimas prestes a começarem a cair. Sou traída pelo teu perfume... mais uma dolorosa recordação que me assombrará nos próximos meses. As lágrimas salgadas molham a tua camisa, e percebes que estou a chorar. Afastas-me gentilmente e a minha visão turva descobre os teus olhos inundados de compreensão.

- Odeio que digas adeus... - digo-te entre soluços, colocando o indicador sobre os teus lábios ao ver-te abrir a boca para responder - Já sei que tens de ir, e sim, por mim não ias a lugar nenhum, mas não é a isso que me refiro. - continuo, ciente de que te preparavas para me explicar, pela milésima vez, as razões para a tua partida. - Refiro-me a dizeres adeus. Odeio que digas isso. Adeus parece uma despedida definitiva... como se nunca mais nos fossemos voltar a ver... como se um de nós fosse morrer...Como se nunca mais pudesse voltar a abraçar-te, a ouvir a tua voz, a olhar-me nos olhos... Odeio essa palavra... Escolhe outra expressão qualquer... Até depois, por exemplo... Qualquer coisa que me dê esperança...A que me possa agarrar quando não estiveres aqui e que me ajude a sobreviver á tua ausência... Que soe a promessa de um reencontro marcado... Adeus não. Adeus nunca. - Termino com a voz embargada.

Puxas-me para os teus braços, das-me um beijo protector na testa, de olhos fechados e murmuras -Prometo pequena - e sais, com a mala na mão, sem nunca olhares para trás, sem nunca olhares para mim. Sei que escondes as tuas próprias lágrimas, que escondes de mim a tua própria dor. 

 Fico á porta, a contemplar o vazio, no exacto local onde saíste do meu ângulo de visão, durante muito tempo, com as lágrimas a correrem livremente... Não me apercebo do cair da noite, dos sons da rua a silenciarem, um por um até se extinguirem á medida que as horas passam... Limito-me a chorar.




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