Pudesse ele...



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Pudesse ele esquecer quem é, despojar-se de si mesmo, despindo a essência, e ser por umas horas egoísta, deixando as consequências para depois...

Pudesse ele converter a insegurança que lhe entorpece o coração em coragem flamejante que lhe incendiasse os anseios desfazendo-os em cinza...

Pudesse ele extrair do seu âmago aquele sentimento que confinou ao mais recôndito da alma e que lhe revolve as entranhas, e colocá-lo a nu, em plena luz do dia, deixando-o livre para se revelar...

Pudesse ele segredar-lhe as palavras que de tanto serem caladas quase o sufocam e lhe queimam a língua, fazendo-as ecoar no íntimo dela, estrangulando-lhe a incerteza que lhe vê no olhar...

Pudesse ele roubar-lhe um beijo, que lhe sossegasse o desejo de a provar e lhe desfizesse a inquietação de saber qual o sabor dos sonhos...

Pudesse ele amá-la, extinguindo o fogo que lhe atiça a vontade de arder com ela, derretendo juntos numa chama perpétua...

Pudesse ela corresponder...

Expressões



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Os olhos são de um castanho escuro, com matizes de avelã. Vê-os vivos e brilhantes quando está alegre, e esmaecer, quase como cobertos por névoa, quando se entristece.

Às vezes traz no olhar uma expressão maliciosa  e travessa, quase sempre seguida de uma  piada parva, outras, raras, traz  uma seriedade incomum, acompanhada de um humor soturno.

Traduz o entusiasmo no modo como fica com os olhos muito abertos, e revela incerteza quando os semicerra.

Quando gosta, os olhos dela ficam mais claros, com o tom avelã quase caramelizado, acolhedor. Se odeia, escurecem e enchem-se de um frio gélido.

De quando em vez, fica com o olhar vítreo, fixo para lá da realidade, sonhadora e esquecida de onde está. E por vezes parece absorver a profundidade do presente num relance atento.

Fala com o olhar, e talvez por isso, parece evitar o contacto visual, fixando sempre um ponto distante acima da cabeça dele, talvez escudando-se do escrutínio de quem parece lê-la na perfeição, talvez consciente de que os seus olhos revelam mais do que pretende, talvez por pura timidez.

A boca é pequena, de tom rosado, com um sinal repousado no lábio inferior.

Quando sorri, tem um sorriso doce, que forma duas pequenas covas, não nas bochechas, mas nos cantos do sorriso, como se naquele pequeno espaço coubessem todas as alegrias do mundo.
E se se aborrecer, faz beicinho, quase como uma criança a fazer birra.

Às vezes, quando está concentrada em algo importante, morde o lábio inferior. Outras, quando refreia o ímpeto de dar uma resposta menos simpática, morde a bochecha por dentro, do lado direito.

Conhece-lhe bem as expressões, quase como se fossem dele, quase como se fossem a mesma pessoa.

O que o intriga são as palavras, as que diz, porque muito embora não duvide da sinceridade delas, lhe parecem cuidadosamente selecionados, cheias de segundos sentidos, como se dissessem algo sem o dizerem, e as que não diz, porque lhe parece haver algo mais nos silêncios súbitos dela, nos olhares que lhe evita e nos sonhadores, nas covinhas dos sorrisos que lhe dedica.

Interpretações



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Finge que são verdades absolutas as interpretações que fazem daquilo que escreve, como se ela fosse um livro aberto, que pudessem ler e cujas metáforas pudessem desvendar sem conhecerem o contexto e o íntimo da personagem principal. Deixa que distorçam as palavras dela, reescrevendo a história, de modo a que seja sobre ti, como se ela não fosse capaz de dizer clara e directamente aquilo que sente, quando o sente, como se precisasse de intérpretes e figuras de estilo na hora de revelar o que de mais secreto guarda na alma. Permite que joguem com os duplos sentidos das palavras que escolhe, como se ela não as escolhesse propositadamente, como se ela não previsse que as fossem ler descontextualizadas, para provarem a teoria. 

A verdadeira beleza da escrita é essa, o poder pôr o coração no papel e contar uma história que vai de encontro aquilo que sentimos, sem que essa seja, necessariamente, a nossa história ou então, contar uma história que nada tem a ver com o que sentimos, mas que vai de encontro ao que outros sentem, transmitir emoções que não sentimos no momento em que escrevemos, mas que sabemos que vão emocionar quem as ler, o poder viver num mundo de fantasia, sem tirarmos os pés do chão, criar personagens inspiradas em pessoas reais e podermos ser quem nunca fomos ou seremos.

E sim, a escrita será sempre a primeira paixão dela, o seu elemento, onde se sente confortável, onde se pode exprimir com maior facilidade, onde pode encontrar conforto, onde pode repousar o ser quando o raio da vida parece demasiado complicada, onde o amor, a paixão, a dor, o medo, a solidão e até mesmo o silêncio são fáceis de compreender, de revelar, de expressar. A escrita será sempre o porto de abrigo da sua alma, onde os segredos tanto podem estar escondidos á frente dos olhos, numa frase simples, como podem ser revelados numa frase difícil de decifrar, onde os seus demónios tanto se consomem, como renascem, onde os sonhos tão depressa nascem, como fenecem, onde se perde e se volta a encontrar.

Quanto ás interpretações... Vou facilitar-te a vida, sim, "ela", neste texto sou eu.
E tu? Interpreta como quiseres ou deixa que interpretem por ti...

Gosta de ti.



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Vai espicaçar-te com trocadilhos parvos e provocar-te só para te arrancar um sorriso. Cada conversa que tenhas com ela, vai ficar-lhe na memória e lembrar-se-á de cada detalhe. Vai falar-te das coisas que a apaixonam, com uma alegria quase incontida.

Provavelmente vais perceber que por trás da mulher à tua frente, está uma menina que não cresce, que acredita em principes e contos de fadas, que acha que o amor é sempre a resposta, que os sonhos são para serem realizados e que vale a pena morrer por ideais. No fundo, vais ver-lhe a essência, sem a capa de cinismo que usa para conseguir viver no mundo real.

Vai contar-te pormenores idiotas da vida dela, partilhar histórias ridículas e rir á gargalhada do desastre com pernas que sabe ser. Vai falar ininininterruptamente, saltando de tema em tema, sem guião nem lógica definida, porque o silêncio a deixa desconfortável.  E quando a conversa começar a ficar séria, vai desconversar e fazer-se de desentendida porque o "sério" a deixa sem jeito.

Não vai olhar para ti quando fala e se eventualmente o fizer, será por breves momentos, desviando o olhar em seguida, porque lhe parece que se a olhares nos olhos, poderás ver para lá da máscara de segurança com que esconde as fragilidades. Vai tentar ajudar-te se achar que precisas, mesmo que às vezes atrapalhe mais do que ajude...

E vai fazer tudo isso porque, á maneira estranha e desajeitada dela, gosta de ti e confia em ti... mesmo que não o diga, porque... Caramba, quem é que gosta de dizer "gosto de ti" a quem quer que seja?
Quem é que gosta de dizer palavras tão difíceis de dizer, expor a alma, as emoções e os sentimentos de forma tão clara e tão passível de rejeição? 

Mas ela, com aquele feitio estranho e aquele ar de quem odeia tudo e o que ainda está por inventar... gosta de ti!

E o tempo parou...



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Abraçou-a. Não era fácil abraçá-la, sempre a esquivar-se a qualquer demonstração física de afecto, como se temesse que o toque, por mais inocente que fosse, a pudesse desarmar e derrubasse a impenetrável muralha que erguera á sua volta e que na maioria das vezes era imensamente eficaz a manter as pessoas á distância.

Odiava vê-la assim, fragilizada, indefesa, de olhar turvo pelas lágrimas e parecendo completamente perdida, esquecida até de usar a máscara de dureza que usava habitualmente para se proteger do mundo.

Há muito que esperava poder abraçá-la mas detestava que fosse assim. Colocou os braços á volta dos ombros dela e apertou-a contra o peito, procurando escudá-la da dor que a assolava e cujos motivos ele desconhecia. Procurou colocar naquele abraço todo o carinho que sentia, todas as palavras doces que ela, com aquele jeito fugidio, nunca lhe deu oportunidade de dizer.

Sentiu a cabeça dela encostada ao seu peito, e as lágrimas molharem-lhe a camisa. Baixou o olhar para ela, e viu as longas pestanas cobertas de pequenas gotas cintilantes e os olhos cor de avelã olharem-no. Sentiu-a contorcer-se no seu abraço, esticando uma mão trémula que lhe pousou na face, e viu o rosto dela aproximar-se. Sentiu os lábios quentes dela e o sabor das lágrimas salgadas.

E o tempo parou.

Promete.



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Se o teu olhar se perder no meu, e eu perder a razão, se esquecer onde estou, quem sou e o porquê deste meu jeito, se me abandonar a ti, se me render aos teus sorrisos alegres, se me encantar pelos teus gestos meigos, se me deixar caír no teu enleio e for tua, tão tua que a minha alma não saiba mais como me pertencer...
Promete que me vais querer como sou... que não vais tentar domar a selvagem em mim, que não vais tentar curar a romântica incurável que sou... Promete que não vais tentar ensinar-me a ser forte quando a minha fragilidade precisar do teu abraço...que não vais pedir-me calma quando eu precisar de gritar a minha raiva aos 7 ventos...
Promete-me que me vais querer, como me queres agora, enquanto ainda não sou tua...

Dúvida.



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Quando ficas a sós, interrogas-te, uma e outra vez. Na tua cabeça, como num filme, passam, uma a uma, todas as conversas, cada momento, em câmara lenta, para que os possas rever e analisar. Arranjas mil e uma desculpas, argumentos vazios para o "é impossível" em que queres tão desesperadamente acreditar.  Debates-te internamente entre o que é visível, factual,  os gestos, as atitudes, e o que é meramente abstracto, os motivos, as intenções. 

Mas mais do que duvidar do que lhe vai na alma, e que denuncia apenas em pequenos gestos, suspeitos sim, reveladores talvez, mas justificáveis, pelo menos na tua óptica, recusas-te a assumir o que te faz sentir.

Queres acreditar que realmente não passam de coisas da tua cabeça, ilusões, más interpretações, porque dessa forma podes continuar a fingir que não sentes, que não te afecta e não precisas de pensar mais nisso, porque "nunca vai acontecer". Sem uma centelha de luz que possa tornar o  teu "impossível"  possível, não tens de lidar com a dimensão da tua própria vulnerabilidade, com todas as fragilidades, anseios e medos que a tua condição humana acarreta.  

As perguntas sem resposta acumulam-se, corroem-te como ácido, infiltram-se em todos os teus pensamentos, minam a tua mente e roubam-te a paz de espírito.  Queres questionar,  tirar esse peso do peito, mas colocas tudo em perspectiva, analisas tudo de diferentes ângulos, pensas demasiado, temes sem saber bem o quê.

O "E se..."  é esta noite, uma vez mais, a tua melhor companhia, quando deitas a cabeça na almofada, ciente de que os teus sonhos vão ser povoados por aquele olhar... Amanhã, provavelmente, será o teu maior arrependimento. E se...?

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