Não me reconheço



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Vejo um rosto de traços infantis, a que a surpresa estampada nos olhos grandes empresta uma certa inocência, contrariada pelo meio sorriso atrevido.  É uma imagem de serenidade, de ligeiro divertimento, que me parece inequivocamente desfasada da realidade. Aquela rapariga que me devolve agora uma expressão interrogativa parece tranquila...espantada, mas tranquila. Não há nela o menor vestígio da minha agitação interior. Não lhe vejo no olhar qualquer sombra, nenhum rasto da mágoa obscura que me passeia pela alma... não, os olhos dela são castanhos e brilham, agora com uma centelha de curiosidade confusa. A tristeza que trago comigo e me esmaga o coração, comprimindo-o e tornando difícil a sua batida, não encontra naquele sorriso enviesado qualquer reflexo. Ela parece segura e feliz, o tipo de mulher que sorri mesmo quando o mundo está prestes a desfazer-se em cinza, ao contrário de mim, que me sinto a desfazer em cinza enquanto o mundo gira sorrindo... Olha-me agora como se estivesse aborrecida, incomodada com a minha análise e revejo-me no seu incómodo. Não sou eu. Não posso ser.

Como é que aquela mulher no espelho posso ser eu? O rosto é o mesmo, os olhos, os lábios, até o sinal que tem pousado no sorriso é igual ao meu... mas as expressões físicas dela em nada coincidem com a turbulência que me reina no espírito. Eu sou transparente...o meu estado de espírito é facilmente perceptível no meu olhar, que fica sempre um pouco baço quando estou triste, no modo como mordo o lábio ou faço beicinho quando estou perturbada, na pequena ruga que se forma na minha testa quando estou pensativa ou na forma como franzo o nariz e semicerro os olhos quando sofro mais do que sou capaz de suportar.  Aquela não posso ser eu...a menos que ande há tanto tempo a ocultar os meus sentimentos, em expressões previamente ensaiadas que estas ficaram permanentemente gravadas no meu rosto e eu já não seja capaz de demonstrar nada além de uma serenidade que não sinto...

Vejo naquele rosto a quietude de sentimentos que gostaria de possuir e não me reconheço. Não sei quem sou. Não sei quem ela é. Somos a mesma pessoa. Uma pessoa que não conheço.

...Quase inteira



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É uma ânsia visceral, que nasce nas entranhas, toma conta de todo o corpo e quase me leva á loucura. É carência, depender do teu beijo, do teu toque para conseguir respirar.É urgência, na forma como te agarro, como se amanhã fosse tarde demais... É angústia, o modo como entrelaço as pernas na tua cintura, como se apenas tu me pudesses impedir de cair... É desespero cada arranhão das minhas unhas na tua pele, como se procurasse agarrar-me aos resquícios da minha sanidade...É agonia, a minha respiração ofegante, e os gemidos sussurrados no teu ouvido, como preces, para que me salves, como se o pudesses fazer... É negação o frémito que me agita o peito, como se entregar-me pudesse desencadear um cataclismo a que não sobreviveria.

É entregar o meu corpo e revelar a minha alma, o melhor de mim e o mais obscuro, numa dança frenética, privada, só para os teus olhos, e amanhecer esgotada de todas as palavras que não foram ditas, perdidas, na contemplação de um momento em que fui quase inteira...

Ser outra...



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Queria não ser eu. Ser outra pessoa. Qualquer outra pessoa. Queria ser simples e descomplicada. Não sentir tudo tão intensamente. Queria que as desilusões não me estilhaçassem o coração, deixando-o ferido, tão profundamente, que parece nunca mais poder cicatrizar... Queria que as mágoas não me estivessem tatuadas na alma, impossíveis de remover... Queria calar as perguntas silenciosas que me invadem o pensamento, os porquês que me assaltam os raros momentos de paz ...Despir-me de todos os sentimentos complexos, confusos, conflituosos...desesperantes! Queria esquecer todas as emoções que me assolam, qual tempestade, e me deixam a alma devastada...Queria despir-me de mim mesma...da minha alma, da minha essência, de quem sou...Pura e simplesmente apagar-me. Apagar a minha história.

Sonhei contigo



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Esta noite sonhei contigo... já não acontecia há vários meses, pensei que estes sonhos tinham acabado...mas pelos vistos a minha vulnerabilidade durante o sono permite que pense em ti, independentemente de eu o desejar ou não... 

Habitualmente quando sonho contigo, és apenas uma presença... sinto-te, mas não te costumo ver, atormentas-me sem que te possa tocar ...esta noite foi diferente...esta noite vi-te tão bem quanto te senti...vi os teus olhos verdes fixos nos meus, senti o toque da tua mão, quente, quando afastaste uma madeixa de cabelo do meu rosto...

Esta noite não me magoaste com as palavras gritadas, como costumas fazer, e os segredos, sussurrados no meu ouvido, foram promessas de encanto ...  Não me afastaste, pelo contrário, procuraste manter-me perto, prisioneira, sem o ser, do teu abraço...

Esta noite não fugi de ti, procurando abrigo no ódio e na raiva como sempre faço, escondendo-me de mim mesma nas mentiras que te digo, negando aquilo que há muito sabes...Não senti o frio que sinto sempre quando sonho contigo, que me tolhe os movimentos e me paralisa os sentidos e que, inevitavelmente, acaba por me acordar, em sobressalto,deixando-me em estado de alerta e impedindo-me de voltar a adormecer com medo dos meus sonhos... 

Não, esta noite foi diferente... tão diferente... esta noite não fugi, deixei-me ser eu, exposta ás fraquezas de que me escudo, á sinceridade que oculto há tempo demais...senti apenas deslumbramento, quando os nossos olhares se encontraram, a minha pele queimar, incendiar-se sob o teu toque...não acordei até que o despertador o fizesse... 

E quando acordei, lamentei o regresso á realidade, abandonada desse terno enleio em que me encontrava e onde era feliz... Claro que os sonhos são apenas isso, sonhos, e não serve de muito perdermos a realidade e a vida na contemplação do irreal...

Está a ser-me muito difícil manter-me acordada e regressar a realidade onde te odeio e me sinto enganada, usada e magoada, um brinquedo de um miúdo caprichoso que apenas quer brincar com ele até encontrar um novo e mais divertido...
Não me sinto com grande capacidade de te odiar depois de um sonho tão bom... deve ter qualquer coisa a ver com o facto de eu me prender absurdamente ás ilusões, com o meu desejo de que a realidade seja um pouco mais mágica... há quem lhe chame inocência... essa coisa tão estúpida e inútil que regra geral serve apenas para me magoar... 

Quero dormir, na esperança que os pesadelos voltem e eu te possa odiar novamente... na esperança de libertar a memoria deste sonho e não continuar a pensar, de não ter de lidar com os "e se?" da minha realidade...


Medo



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O coração acelera, a boca fica seca, as mãos tremem. Não consigo pensar com clareza, há uma espécie  de nevoeiro que me tolda o raciocínio e me deixa os pensamentos em torvelinho. Não consigo pronunciar uma única palavra correctamente, limito-me a balbuciar com incoerência. As lágrimas acumulam-se no meu olhar e tudo me parece estranhamente desfocado, uma espécie de realidade alternativa, como se olhasse através de um vidro fosco. Os sons que me chegam parecem abafados, como se tivesse a cabeça debaixo de uma almofada. A minha respiração é irregular, quase como se estivesse prestes a sufocar.

Sinto-me como se estivesse no meio de um furacão, a ser atirada de um lado para o outro, sem conseguir escapar, incapaz de encontrar uma saída ou solução...

Sinto-me vulnerável, exposta, nua, sem poder escudar-me na ironia ou no sarcasmo para esconder as minhas fragilidades, os meus medos. Não gosto de me sentir indefesa e desprotegida, de sentir que poderei ser magoada. Pela primeira vez em muito muito tempo não me posso esconder atrás de um sorriso ou de uma piada.

Tenho de avançar, mas temo que o meu passo incerto apenas me leve por um caminho demasiado tortuoso onde possa cair e ser incapaz de me levantar...

ódio



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O café ainda na minha frente, por mexer.  Devagar, expiro o fumo.  Olho para a sobrancelha arqueada dela:

- Ele é um cabrão e quero mais é que ele se foda.

Ela olha-me e sorri. Sabe bem o que está por trás daquele comentário aparentemente sem nexo. Conhece-me melhor do que ninguém.

Tu chegaste depois de mim. Ela percebeu que tinhas chegado no instante em que a minha voz se calou a meio de uma frase. Viu isto acontecer centenas de vezes,viu o meu mundo parar no instante em que tu te aproximavas e tudo ficar em suspenso...  Paraste à porta a observar-me.  Demoraste-te nas pernas, deixadas a descoberto pelo vestido preto, bem curto, e subiste o olhar até ao meu rosto. Contraíste a face numa expressão de surpresa contrariada ao perceberes que te observava também.Dirigi-te um olhar frio e tu saíste. Não consegui conter um sorriso.

Não lhe dou tempo de replicar. Viro-me na cadeira, olho-a e digo-lhe:

- Ele é um cabrão que pensa que o mundo gira à volta dele. E ao contrário do que possas pensar, tudo o que me passa pela alma neste momento é ódio puro. Odeio-o por tudo o que sofri. Odeio ter gostado tanto de alguém cujo ego supera o número de estrelas, isto se se pudesse medir o ego de alguém.  Odeio pensar nas noites que perdi, a viver numa incógnita por ele ser covarde. Odeio ter vivido tanto tempo com o fantasma dele a assombrar a minha vida e as minhas relações.  Odeio o modo como ele me fez mudar e como me tornou taciturna. Odeio as cicatrizes que me deixou na alma e que me tornaram a vida depois dele tão difícil. Odeio que tenha o descaramento de me olhar nos olhos e fazer aquele ar de quem está a sofrer profundamente.Odeio-o tanto, que não sou capaz de demonstrar qualquer tipo de compaixão, não sou capaz de me lembrar de nenhuma boa razão para me ter apaixonado por ele. Odeio-o tanto que se lhe pudesse pagar na mesma moeda o sofrimento que me causou, se o conseguisse magoar ao pondo de fazê-lo odiar-me, fá-lo-ia! Por isso, se me vais perguntar se ainda olho para ele da mesma forma, a resposta é não. Odeio aquele cabrão convencido ao ponto de lhe querer esbofetear aquela cara estúpida.

Ela ri,  ri à gargalhada e eu fico aliviada. É aquele riso de quem sabe que estou a ser profundamente sincera, de que acredita em mim, que por trás da explosão de ódio e raiva que me transfiguram a expressão estão anos de um amor sofrido, de mágoas caladas,de palavras por dizer. De quem sabe que finalmente te concedo o desprezo que me mereces e que vou ali ser feliz e não volto mais a este lugar escuro.

Ela e eu...



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Chama a atenção, não que seja particularmente bonita, mas tem qualquer coisa de especial. Talvez seja o ar frágil, de menina, presa no corpo bem feito de uma mulher. Talvez seja o modo de caminhar, como se não soubesse muito bem de onde vem, ou para onde vai, com a cabeça baixa, como que procurando alguma coisa perdida.

Levanta a cabeça, enquanto prende uma madeixa de cabelo rebelde atrás da orelha, os olhos muito abertos, uma expressão levemente confusa, como se estivesse surpreendida por se ver naquele lugar, sem ter bem a certeza como lá chegou. Tem um rosto bonito, os lábios rosados em forma de coração, perfeitamente cheios, como os de uma criança, dão-lhe um ar inocente, quase angelical. Os olhos são  bonitos, de um azul claro como o céu numa manhã de verão, mas o olhar, apesar de sincero é ensombrado pelas nuvens de tristeza que carrega na alma.

Senta-se no banco de jardim, cruza as pernas, o vestido amarelo a esvoaçar... Tira um livro da mala que traz a tiracolo e ali fica sentada enquanto o vai folheando, lentamente e a sua expressão se vai alterando. Um sorriso irónico trespassa-lhe o rosto, depois uma expressão chocada...Quando finalmente decide fechar o livro, tem lágrimas a bailarem-lhe no olhar.

Levanta-se, lentamente, como se receasse cair e vejo-a afastar-se, naquele passo incerto, por entre as árvores em tons de vermelhos e dourados, manchadas de Outono... E é como se me visse num espelho, com alguns erros deliberados, a caminhar, afastando-me daquele parque, afastando-me de mim mesma...





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